INSENSATAS PALAVRAS
Breve Itinerário de
uma Busca
A possibilidade de exercitar livremente
o verso, em verdade, significa o comprometimento com uma
tradição que antecede Ovídio, Homero e até as primeiras expressões da linguagem
escrita. (Especulando-se aí o fato de que a poesia tem a idade do mundo). Mas a poesia
não é, definitivamente, como diria Mário Quintana, uma corrida de cavalos. Portanto,
brindemos previamente com nossas colheitas de camomila aos generais da política literária. Ao invés de
procedimentos arrogantes e excludentes, devemos sempre acolher aqueles que buscam firmar os pés
nesta areia movediça.
Regina Lyra não necessita de aprovações e
acenos de boas vindas. Ela escreve o que vive no cotidiano, com a ternura de quem acredita que a
felicidade não é um ponto perdido na memória. E nem pede passagem,
porque caminha sem medo pelas próprias emoções, despindo-as,
desvendando-as, transmutando-as em versos que buscam fertilizar o
solo estéril do cotidiano
abrindo as comportas dos sentimentos (...) como diz o poeta Sérgio Castro Pinto, na orelha do seu primeiro livro (O Livro das Emoções). E, continua o poeta, dizendo que para Regina as
palavras parecem ser uma espécie de cordão
umbilical atando-a firmemente à fugacidade da vida. Perfeita a digressão do
mestre. Nada mais precisaria ser dito. No entanto, muito tem se falado acerca do
sentimento expresso na obra poética. T. S. Eliot, afirmou que é mesmo necessário ao poeta desnudar-se de sentimentos. E concluiu: mas, quem poderá desvestir-se do que não
possui?. E aí completo o
raciocínio, lembrando o velho Mallarmé dirigindo-se ao seu amigo pintor impressionista,
Degas, que afirmava ter boas idéias, mas não conseguia escrever
poemas: poemas não se fazem com idéias, mas
com palavras. E logicamente que nem com sentimentos. Mas a palavra é apenas um
dos instrumentos de expressão que pode dar asas ao poema. Talvez por isso, para Mário Quintana, a poesia se resume na procura da poesia.
E Regina Lyra, quando escreve poemas como Banquete, muito mais do que expressar os seus sentimentos, está buscando sua
melhor utopia. (Siqueira, 2003).
(Trechos
de Poemas)
A visão escurece
pela cortina do cheiro,
os olhos cerrados
dão origem ao tato,
em um toque freqüente
sente o tônus do alimento,
despertado pelo olfato
estímulo na boca
objeto do desejo.
No sono
prazer do pecado
esperança no amanhecer.
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